Costurar é revolucionar

A importância do faça-você-mesmo para mudar o mundo

Autora: Débora Schimidt Nardello (Estilista da marca Lusco Fusco)


Muita gente não sabe (e outros muitos sabem) mas além de designer faz-tudo na Lusco Fusco/blogueira/cicloativista/ilustradora/nova podcaster/bike anjo, sou também professora de costura (e modelagem!). Desde que me conheço por gente sou uma super entusiasta do faça-você-mesmo (em diversas áreas, não só na costura) e hoje tenho a honra — e responsabilidade — de ensinar pessoas que buscam na costura um fonte de renda, mudança de carreira, autonomia e independência, um novo estilo de vida, passar o tempo de forma produtiva, abrirem seus próprios negócios e embarcarem em um dia-a-dia com mais autenticidade, beleza e conexão. Se para mim a moda sempre foi paixão, refúgio e forma de expressar quem sou e as coisas que acredito, ensinar outras pessoas a fazerem roupas e encontrarem na moda um caminho para suas vidas foi totalmente natural e até meio óbvio (minha professora de costura sempre me disse que um dia eu também seria professora de costura — será que ela previa o futuro?)


Aos meus olhos, costurar é uma habilidade mágica — muito útil no dia-a-dia, mas muito mais do que simplesmente fazer bainhas. Seja à mão ou à máquina, uma roupa simples ou complexa, transformar um pedaço de tecido em uma peça é absolutamente fantástico. É colocar um pouco de si em uma coisa tangível, contar uma história sobre quem somos, construir uma relação não-descartável e fazer uma coisa que é só minha, misturando originalidade, delicadeza e respeito. Implica em fazer de fato, ao invés de apenas perceber que algo é feito para nós. É se colocar como protagonista. Ao costurar uma coisa colocando um pedacinho da minha alma promovo uma conexão invisível e um compromisso com aquela peça, fazendo-a durar mais.


Se o futuro vai ser feito à mão, costurar também é uma forma de ativismo político e ambiental, mesmo que ao primeiro olhar não pareça. Envolve questionar como as coisas são feitas e dar mais valor ao ofício, às pessoas e matérias-primas envolvidas. Roupas feitas em casa subvertem o sistema e sua lógica consumista. Passando muito longe do fast-fashion, ao construir uma roupa invisto meu tempo, criatividade e energia, coisas que definitivamente não estão à venda. Costurar é desacelerar. E desacelerar nessa sociedade que vive correndo contra o tempo é uma mini revolução.


Confeccionar roupas também é muito democrático, pois todos nós podemos fazer, não apenas aqueles com posses e privilégios. Da mesma forma, é um ato feminista, já que as mulheres agora reivindicam a costura como libertação e empoderamento e não mais como opressão. Aqui gostaria de indicar o livro “A Costureira de Khair Khana”, que conta a história de Kamila Sidiqi, uma mulher que através da costura transformou a sua realidade e ajudou sua família e comunidade durante o regime Talibã em Kabul, no Afeganistão.


Em uma sociedade dominada por produção em massa, onde somos constantemente julgados pelo quê podemos comprar, fazer algo com as próprias mãos é uma revolução. Ao fazer algo expresso quem sou e as coisas que acredito, ajudo o planeta, contribuo para uma sociedade mais verdadeira e menos consumista, tenho um novo olhar sobre como são feitas as coisas, diminuo o ritmo louco que estamos acostumados a viver, me conecto com a liberdade e a criatividade e posso ter a certeza de espalhar por aí beleza e autenticidade e fazer parte da transformação por um mundo melhor.

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