Como transformei a Síndrome do Pânico em Empreendedorismo

Autora: Gita Coelho (Criadora da marca Feito por gita)

A primeira crise aconteceu num final de semana de 2005. Tudo parecia "Sob controle". Almoço em família, risos e brincadeiras. Voltei para casa. Sentei na minha cadeira preferida e de repente... lá estava ela. Se apresentando para mim, de uma forma abrupta, sem nenhum aviso, e ...pronto!!! Corri para o hospital, (que graças a Deus, tinha ao lado da minha casa, na época) achando que estava infartando. Fui medicada, colocada em observação, e saí de lá horas depois sem saber o que tinha acontecido comigo. Lábios roxos, tremedeira, face pálida. Primeiro Rivotril da minha vida.


Voltei para casa com uma sensação de estranhamento. O que teria sido aquilo? A partir daí outras sensações estranhas foram acontecendo. Me vi saindo das conduções. Saindo dos shoppings. Dos supermercados. Muita gente junta começava a me incomodar.


Primeira descoberta - Sou um ser mortal. Me descobri com medo da morte. E a partir desse momento comecei a fazer um itinerário que nunca tinha feito antes - Consultórios Médicos. A cada dor, a cada espinha, a cada formigamento, a cada taquicardia, eu corria para os médicos, para os hospitais. Fazia exames. EU precisava saber que tudo estava bem, para aprender a lidar com um monte de sensações que o meu corpo começava a apresentar. E como ele apresentava sintomas!!! Meu corpo nunca falou tanto comigo como nesse primeiro ano em que convivi com tamanha algazarra dentro de mim! Foi assustador!


Até o dia em uma amiga me apresentou a tudo isso! - Gita, você está com síndrome do pânico. Minha filha teve esses mesmos sintomas que você. Conselho: Procura um psiquiatra. E, sem nenhum preconceito... Lá fui eu.


A falta de informação sobre as doenças que afligem a alma/mente leva as pessoas de um modo geral, a terem muitos preconceitos. Psiquiatria é uma das especialidades que passam por esse corredor - o corredor do preconceito. Só de falar "procura um psiquiatra" as pessoas já respondem de pronto: - Não!! isso é médico para maluco. Quando eu dizia que estava com síndrome do pânico e que tinha ido ao psiquiatra, as pessoas me olhavam como se eu fosse louca.


Mas, para mim, procurar um psiquiatra era a possibilidade de encontrar a cura para aquilo que tanto me afligia. Cheguei à consulta cheia de expectativas. Na verdade, nem sabia como era uma consulta com um psiquiatra. Contei tudo que passei durante 2 meses. Todas as angústias, aflições, medos, sintomas, e veio o diagnóstico - SÍNDROME DO PÂNICO. Segundo ele, a minha "versão" era leve e com 1 ano de medicamento eu já estaria equilibrada (segundo a minha vivência, a ansiedade, que leva ao pânico, não tem cura - ela permeia entre autoconhecimento e equilíbrio emocional).


Já diagnosticada, com a indicação de uma terapeuta, e a receita na mão, parti para cuidar de mim. Percebi naquele momento que eu precisava dar um outro olhar para minha vida. De repente, tudo ficou diferente. Eu era um ser mortal,

que precisava lidar com alguns limites, e precisa descobrir quais os gatilhos internos estavam fazendo com que o meu corpo travasse um monte de diálogos comigo. Ele não entendia que eu não queria aquele tipo de papo. Que eu queria continuar levando a vida que eu tinha antes. O que eu não sabia até então era que a partir daquele momento uma nova Gita nascia dentro de mim. E quer saber? Gosto muito mais de mim hoje. Sabe porquê? - Por que hoje me conheço muito mais. Conheço meus limites - quando falo limites não estou me fechando num determinado espaço, com medo de ir a luta. Não! Muito ao contrário, estou indo até onde é confortável e saudável. Hoje, a minha prioridade é o meu bem-estar. O limite é não ultrapassar a barreira entre o meu bem-estar e o que as pessoas querem ou esperam que eu faça.


Não é fácil passar por essa doença, esteja ela numa versão, leve, moderada ou forte. Porque os sintomas são os mesmos, o que diferencia é como cada um os vivencia. O que faço aqui neste espaço é escrever sobre as minhas vivências e as coisas que aprendi sobre essa doença, porque acho que compartilhar conhecimento é possibilitar ao outro uma nova visão para as mesmas coisas.


Comecei a terapia com uma profissional, à qual dedico uma eterna gratidão. Ela me fez uma pergunta que trouxe para mim um grito de liberdade: - Você tem algum dom para trabalhos manuais? Eu disse, não. Até descer a escada rolante, da galeria aonde ficava o consultório dela e me deparar com uma gigantesca loja que vendia peças para montagem de bijuterias. Encontrei ali o meu parque de diversões....


A loja toda colorida me trouxe a sensação de estar dentro de um parque de diversões, mas ao mesmo tempo em que as cores me encantavam, a imensidão de peças me deixava boquiaberta. O que fazer? Como fazer? Por onde começar?


Comecei pelas pequeninas miçanguinhas multicoloridas. Pensei... vou fazer um cordão. Escolhi as cores que eu queria, chamei o vendedor ( que trabalha nessa loja até hoje), e perguntei como eu poderia finalizar o cordão. Quais ferramentas seriam necessárias? Explicações dadas, comprei e levei para casa as minhas primeiras possibilidades. Comecei a "brincar de me curar". Aquele universo que eu desconhecia, o universo da criatividade, começou então a surgir diante de mim. De miçanga em miçanga, comecei a recriar minha história. Fiz colares e pulseiras. Um dia, uma amiga chegou em casa e me perguntou quanto custava o conjuntinho. Pensei, que legal! Ainda vou ganhar uns trocados fazendo isso? Ai, fechei meu primeiro negócio. Um conjunto de colar e pulseira para ela dar de presente. Depois, essa mesma amiga, que tinha 50 clientes (ela fazia massoterapia), me perguntou o que ela poderia dar de presentes para as clientes, no Natal. Pensei, pensei, e daí surgiu a ideia de fazer marcadores de livros feitos com miçangas. Uau!!! Minha segunda encomenda. Comecei a visitar a loja com mais frequência e a solicitar cada vez mais a ajuda do vendedor. Fui aprendendo assim a confeccionar diversas peças de bijuterias. Finalmente, eu estava adiante de um dom que eu desconhecia - trabalhos manuais, arte. Um dom que me traria mais tarde, completa realização pessoal.


As cores sempre fizeram parte da minha vida. Sou uma pessoa colorida. Mas as cores que me curam têm uma matiz diferente. A cada dia diversas imagens de colares, pulseiras, e brincos passeavam pela minha mente sem que eu conseguisse dar conta de tanta criatividade. Sou completamente apaixonada por ela - criatividade. E, onde entra a síndrome do pânico? A partir desse momento, com o auxílio da medicação, terapia e as cores que invadiam a minha vida ela se aquietou. Foi embora. Achei que ela não voltaria mais.


Mas, depois de 10 anos, ela voltou. Tive então a segunda crise de pânico. E aí, nesse momento tomei a decisão mais importante e libertadora da minha vida. Eu ia conhecer essa danada de perto e nunca mais a teria tão presente em minha vida. Voltei ao psiquiatra. Voltei a medicação. Mudei a terapia. E comecei a me olhar de forma mais atenta. O importante para mim nesse momento era me "descobrir". Percebi que eu precisava me conhecer e re-conhecer mais.


Com esse olhar mais atento, comecei a trilhar outros caminhos... O caminho da libertação dos meus medos....


Nessa nova etapa da minha vida encarar a síndrome do pânico de frente foi a melhor opção, pois o medo nos paralisa. A síndrome do pânico nos amedronta. Mais eu tinha decidido que dessa vez ela não iria me dominar. Ela não ia ficar tirando onda comigo dessa vez.... Dessa vez não. Voltei ao psiquiatra, voltei a medicação, continuei na terapia e busquei informações. Eu precisava saber "com quem ou que" eu estava lidando.


Entrei em alguns grupos e comecei a ver que os sintomas eram os mesmos, até os mais "esquisitos". Então quando o meu corpo começava a trazer a tona alguns sintomas, aquilo já não me deixava em pânico. Eu já não corria mais para os hospitais achando que ia morrer. Nesses momentos eu buscava amigos que pudessem conversar comigo. E a medida em que eu ia falando, o meu olhar saía dos sintomas e eu ia melhorando. Então o que começava como crise de ansiedade não evoluía para o pânico. Assim, eu comecei a dar conta dela. Da ansiedade e da síndrome. Comecei a entender os caminhos. Sentia quando ela sorrateiramente ia chegando, aí além de usar o SOS (medicamento para ansiedade) eu usava o meu SMA (Socorro Meus Amigos). E também usava como recurso as bijuterias. O universo criativo tira o olhar sobre nós mesmos e coloca o nosso olhar em outro foco. Isso ajuda muito.


Tantos anos se passaram depois da primeira crise, e hoje me percebo muito melhor e mais feliz do que já fui um dia. Pode parecer balela, mas não é.

Sei que a síndrome do pânico é uma doença difícil, assim como todas as outras doenças da psique, da alma, mas sei também que existem muitos caminhos e escolhas para serem trilhados e para serem feitas. Eu escolhi vencer essa dura batalha e tive muita ajuda por esse caminho todo que trilhei.


Acho que o mais difícil de tudo é a falta de informação e entendimento das pessoas que convivem com a gente. Vi nesse trajeto muitas amigas me olhando sem entender aquilo tudo que eu sentia, mas o mais gratificante nisso tudo foi perceber que mesmo sem entender e sem saberem o que fazer, estavam ali ao

meu lado. Correndo para a minha vida a todo instante que gritava por socorro. Dou graças a vida por todos os SMA que lancei e que tive retorno.


Hoje, posso dizer com o coração cheio de amor por todos eles - amigos e familiares que me abraçaram e me guiaram pelos hospitais que passei ao longo de todo esse doloroso trajeto, o meu muito obrigada. A minha eterna gratidão. O meu eterno amor.


Ah! Mais acabou? Não!!! Ela, a ansiedade, continua convivendo comigo, só que agora de uma forma mais harmônica. Não existe mais a dominação. Ninguém domina ninguém. Chegamos a um acordo de convivência mútua.


Eu decidi ser feliz! E decidi também compartilhar a minha trajetória porque acho que sempre podemos ajudar de alguma forma com as nossas experiências.


Transformei os meus medos em alegria, em cores, criatividade e bijuterias. Criei uma marca de bijuterias sustentáveis, registrei a marca no INPI, entrei para as mídias sociais, criei um site, um e-commerce e comecei a empreender. Transformei minhas dores em cores, as pedras do caminho em pingentes e agradeço sempre a possibilidade de ter transformado o caos em novas possibilidade e sonhos.


Além do autoconhecimento a síndrome do pânico trouxe para minha vida a possibilidade de trabalhar a criatividade criando peças de bijuterias sustentáveis, coloridas, que encantam e enfeitam centenas de mulheres por ai afora. Minha marca retrata a minha história. Fala de mim e dos meus sonhos. Mostra as cores que encantam a minha vida e aquietam a minha alma.

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